domingo, novembro 06, 2005

Confissões de uma eterna paixão

Lá vem ela, após a despedida matinal da mãe, com seu rabo de cavalo e sua mochila amarela e azul. Uma menina legal, que me emprestou seu apontador cor-de-rosa com brilhos prateados. À primeira vista, paixão. Brincadeiras, todos os dias. Bate-papos quase incessantes de tão bons. Descobertas e curiosidades compartilhadas.

Alguns momentos continuam vivos em minhas lembranças, como se ainda estivesse ao meu lado: quando fui o seu par na quadrilha da primeira série; das corridas pelo corredor da escola, inclusive uma vez em que ela machucou a perna; do sotaque sulista; das cantaroladas entoadas nas aulas de Educação Artística ("dâu dâ rí dâu dâu" - aquilo que o pica-pau cantava enquanto andava); do casamento de mentira feito no aniversário do Eliaquim, na segunda série.

Terceira série. Ano opaco. Um período de tristeza pela perda da melhor amiga, que passara para o turno da manhã. Antes do ano terminar, insisti com a minha mãe para que eu também mudasse de turno. Fui atrás da minha paixão.

Primeiro dia de aula. Felicidade escancarada nos meus olhos. Lá estava ela. Ah, como eu fiquei feliz, explodindo por dentro por revê-la. Arranjei logo uma carteira bem próxima à sua. Meu coração estava começando a se recuperar.

Até a quinta série, não nos cansávamos de fazer parte do mesmo grupo de trabalhos. Brigávamos para ficar próximos um do outro. Lembro de uma ocasião em que ela brigou até com um menino por causa do lugar em que ela queria sentar. Seus cabelos estavam bem curtinhos. E em um dos encontros de "fazer trabalho", na casa dela, comi sagu pela primeira vez. Para nunca mais esquecer. Não há uma única vez em que eu coma esse troço que eu não a traga de volta, ainda que mentalmente.

Na sexta série, mudanças profundas entre nós. Se no ano anterior, ela havia me confessado de que eu era seu melhor amigo, este ano apareceram novos rostos interessados em sua amizade. Nem trabalhos mais fazíamos juntos. Conversas, poucas. Tão perto e tão longe. Dois amigos meus (Fabrício e Alan) inventaram de ficar afim dela. Fazer o quê? Lamentar.

1998. Mais uma vez roubam o meu amor, que vai estudar em outro colégio, bem mais caro. Se não fosse por isso, eu ter-lhe-ia seguido novamente. Deus deve ter rabiscado linhas muito tortas para as nossas vidas. Antes da despedida, escrevi um bilhete contando grande parte dos meus sentimentos. Só não falei que era afim dela, ou que por seis anos estive apaixonado poe ela porque era (e ainda sou) tímido demais para isso.

Só fui reencontrá-la dois anos mais tarde: eu, a Amanda (outra grande amiga), a Lu e... o seu namorado. Que baque! Mas quem era eu? Um tímido adolescente que usava óculos fundo de garrafa. Por que diabos eu ir-lhe-ia agradas algum dia, do modo como eu desejava?

O tempo flui. A metamorfose juvenil que ataca a todos nós moldou caminhos diferentes que talvez nunca se cruzarão (embora ainda exista a esperança de uma luz no túnel escuro se acender). Porém, ainda não encontrei um jeito definitivo de tirá-la do meu coração e das minhas lembranças (e não é por falta de tentativa).

Se o cupido agiu, sua lança continua presa em mim, mas acho que errou o outro alvo. É lamentável, entristece-me admitir que tudo está perdido, que eu não tenho chance (e se um dia a tive), que o passado é passado, que nós não combinamos. How can I go on?