quarta-feira, novembro 09, 2005

Quatro gerações de idéias

Quando o Luiz me convidou para voltar a trabalhar no SEC, atuando na área de diagramação visual, a primeira coisa que eu fiz (sem a prévia autorização dele) foi dar uma olhada nos painéis que o Jonilson estava fazendo para uma exposição sobre o Projeto desenvolvido em Trombetas. De cara, não gostei. Apresentavam um aspecto pouco inovador, utilizando-se de recursos limitados do Corel, como os padrões de fundo. Parecia “trabalho de cartolina”.

Pseudo-ingenuinamente, comecei a fazer as minhas versões dos painéis: o fundo, ao invés de simples e pobres, utilizei uma foto grande (que tivesse a ver com o tema de cada painel) sob uma lente transparente colorida; o contorno das “fotos (cerca de 12 em cada um) do corpo”* do painel continha duas pontas em curvas e duas em retas, diagonalmente opostas respectivamente, com um formato quadrangular (20 x 20 cm); as cores do título, do texto, das legendas e do fundo das legendas combinavam com a cor da lente sobre a foto de fundo; cada painel tinha uma foto principal, maior, e, embaixo dela, em fundo preto, o texto. Assim, pude acrescentar ao painel uma identidade, tanto individual quanto coletiva, ou seja, todos os painéis seguiram um padrão de disposição de fotos e texto, diferindo apenas no conteúdo (óbvio!) e na coloração.

“Sem querer”, deixei que o Luiz visse um deles e eu disse que “não era nada sério”. Foi o bastante para que ele chamasse o Alcemir e o Luizinho para darem o veredicto. Devo, modestiamente, confessar que os meus estavam superiores ao do Jonilson: mais modernos, ousados e visualmente apresentavam uma identidade. Resultado: eu fiquei responsável por essa exposição, e o Jonilson foi remanejado para cuidar de outra (que curiosamente seria diagramada por mim).

Como eu me enjôo um tanto quanto rápido das coisas, acabei tendo idéias melhores para os painéis, o que culminou em uma segunda versão que intitularei aqui de “artística”. Ousei, novamente, ao propor outro formato (de 1 x 1,30 m para 1,20 x 1,50 m). Como fundo, fotos das cerâmicas produzidas pela comunidade com um efeito de aquarela. Sobre isso, uma lente com transparência colorida. As cores, antes vivas, passaram a ter um tom pastel, de terra. Embaixo das fotos “do corpo”, “bolsos” onde colocar-se-iam folders, revistas, cartilhas etc produzidas pelo projeto e que tivessem alguma vinculação com o assunto. O objetivo era dar interatividade aos painéis. O mais interessante era o painel sobre a cultura do barro, onde ter-se-ia uma espécie de arquibancada para colocar algumas peças de cerâmica.

No entanto, uma mudança me atingiu de surpresa: os painéis, agora, teriam tamanho gigante – 2 x 2 m! Sendo que eles seriam divididos em dois de 1 x 2 m. Fui extremamente contra porque tiraria a idéia do “todo” de cada painel. Mas como na minha mente, se tudo não acontece como esperado, sou obrigado a desviar-me com outro olhar, criando uma programação visual nova, assim o fiz.

Surge, então a terceira geração desses painéis, com algumas características que remetem à primeira versão (minha), como o uso de cores vivas. 2/3 do painel (para cima) seriam destinados ao leitor e 1/3, como ficaria a partir de 70 cm do chão, arranjei figuras em 1 bit, mas coloridas, formando uma faixa contínua que ligaria todos os painéis (embora, com cores diferentes).

O fundo do painel (como um todo) era uma única cor. Como as figuras da faixa do 1/3 era de 1 bit, a cor referente ao preto era mais escura que a cor do fundo, e a cor referente ao branco era da mesma cor do fundo (existe uma opção na qual podemos mudar as cores de uma figura de acordo com o número de bites, então era isso que eu fazia: primeiro transformava a figura para 1 bit, isto é, preto e branco, e em seguida eu substituía as cores para combinarem com a cor do fundo do painel).

No local onde estaria o texto e as fotos do corpo, o fundo era uma figura enorme de 1 bit, com uma coloração mais clara que o fundo do painel (a cor equivalente ao preto era da cor do fundo do painel e a cor equivalente ao branco era mais clara). A impressão que eu quis dar era a de uma tela de televisão, onde as fotos do corpo desfilavam. Essas fotos foram dispostas e recortadas propositalmente de maneira irregular, cada uma sobre um fundo preto de pontas em curvas e arestas igualmente irregulares (de forma que combinassem com as fotos).

Mas o fato dos painéis serem duplos causava a perda da noção do “todo” que cada um deveria ter. O inconformismo fez com que eu bolasse outra diagramação, a “quarta geração”, que apresenta características de todas as gerações: cores vivas, mas também em tom pastel; o uso de figuras em 1 bit.

Essa nova idéia tenta resolver o problema da “separação física dos painéis duplos”, pois as duas partes contrastam visualmente entre si (em relação ao fundo), mas apresentam elementos que permitem a ligação entre eles. De um lado, temos um fundo colorido (uma tonalidade), baseado em uma figura de 1 bit; de outro, um fundo totalmente preto. No lado “de cor” está o título e, logo abaixo, o texto; no lado “escuro”, à altura do leitor estão presentes as fotos do corpo, logo acima, um subtítulo referente ao tema central e, espalhados pelo fundo preto, figuras em 1 bit de fundo transparente (ressaltando apenas a cor equivalente ao branco, cor essa, posteriormente e obviamente substituída) com a mesma tonalidade do outro lado.

Dessa forma, mesmo separados, os painéis não perdem a identidade individual de cada um – baseada nas cores. A identidade coletiva fica por conta de um degradè, que vai do verde musgo ao vermelho, levando em conta a ordem dos painéis. Modéstia à parte, estão visualmente interessantes e, nas palavras do Luiz, “artísticos”. Espero que agrade.

* fotos do corpo são as fotos utilizadas para ilustrar as idéias apresentadas no painel, no “corpo” do painel, e não como fundo ou “meramente decorativas”