Ele, Ela e o cobrador de ônibus
- Eu poderia tirar da obscuridade o último segredo do mundo. O único que você julga não saber.
- Lá vem você...
- Por que todas as pessoas, no fundo, no fundo, acham que pensam o “mais” certo?
- Por que você é hipócrita?
- Quem não é, no fundo, no fundo?
- Você me azucrina! Sabe o quanto eu te amo?
- Amor?
Ela abaixa o rosto, cruza os braços e enche os olhos de lágrima.
- Você não sabe o que amar, né? Será que passa pela sua cabeça que o amor pode existir?
- Eu não acredito no amor.
- Ah... novidade!
Ele dá um sorriso entre o sádico e o irônico.
- Quantas você deixou nesse estado?
- Nunca contei. Adiantaria contar?
- Você é um insensível, mesmo.
- Eu nunca disse o contrário. Vocês é que acreditam.
- Cara, tu não tens noção do que fazes, não? Só a tua vida importa!
- Ué, e por que eu iria suar pelos outros?
- Que prazer você tem ao ver os outros sofrerem?
- O mesmo que você deve ter ao chorar.
Ela passa a mão no rosto, enxugando-o.
- Por que eu ainda insisto em você.
- Acredite, você não é a única.
- Nossa, és tão cobiçado assim? Talvez seja por isso que nunca sabes o que quer.
- Sei, sim. Existem horas que eu sei que eu quero você. Outras, que eu sei que você fica melhor longe de mim.
- Não acredito que estou ouvindo essas coisas.
- Boa colocação. Por que ainda está aqui?
- Por que eu gosto de ti! – e cai aos pés dele.
- Ai meu Deus...
Ela grita várias vezes “eu gosto de ti!” à medida que, sem largar dele, se levanta até as bocas se encostarem uma na outra.
Um beijo.
Duas línguas.
Ela o abraça.
Ele tem as pupilas dilatadas.
- Por que você faz isso comigo? – diz Ela, choramingando no ombro dele.
- Foi você que fez.
Ela sai dali e vai sentar na escada, com a cabeça abaixada.
- Escuta...
Ele senta ao lado dela.
- Sai daqui!
Ela repete isso várias vezes, insistentemente. Ele se cansa e desce as escadas.
- Volta aqui, filho da mãe!
Um olhar.
Dois rostos: um com saudade do outro; o outro cansado de um.
- Como é que você consegue ser assim?
- Assim como?
- “Assim como?”
- Posso te pedir uma coisa?
Ela não faz que sim nem que não com a cabeça. Apenas o admira.
- Vamos esquecer tudo isso. Não cria expectativa de um futuro que não vai existir.
Ela levanta como um dragão apto a liberar extensas labaredas.
- Mas todo esse tempo foi isso que você deixou acontecer, seu insensível, insensato, infeliz, idiota, filho da puta! Esses meses inteiros eu pensei em você, em nós, em nosso futuro. Achei que um dia você pudesse mudar e poderíamos viver uma paixão normal. Mas não! Você só fez aumentar a minha ilusão. Aquela droga de bebida que você bebeu aquela noite deve ter feito algum estrago em sua cabeça pra fazer você me beijar e inventar essa farsa toda! Seu maldito mentiroso! Eu te odeio!
- Ei! Todas as vezes que eu te beijei eu estava ciente do que estava fazendo por que eu estava apaixonado! Mas você parecia não dar a mínima. Vivia falando que não precisava de mim. Você acha que não me iludiu também? E como! Você realmente não sabe as noites que eu quase não durmia pensando em você!
- E você nunca me falou disso, por quê? Você nunca disse que me amava!
- Mas quem somos nós pra falar de amor? Que coisa complicada!
- Eu te iludi, foi?
- O nosso caso foi uma ilusão. Foi uma paixão estranha. Ninguém dizia que gostava um do outro. Os beijos eram sempre uma aventura. Nunca se sabia se era certo ou errado. E a resposta, você nunca me dava. Eu ficava voando, sem saber como agir, o que dizer. Aos poucos, aquilo que eu sentia foi diminuindo, diminuindo... E o que restou é uma quantidade tão irrisória para uma paixão que ela sequer tem forças para voltar.
- Por que você só está me falando isso agora? – recomeça a chorar.
- Por que você nunca me perguntou. Nunca tivemos uma conversa. Você nunca se abria comigo. E isto é o resultado.
- Eu não tenho culpa...
- Não existe culpado nesses casos. Apenas vítimas. Geralmente duas.
- Você? Vítima? Ha-ha...
- Você continua achando que é a única. A única que sofre, manda e geme de tristeza.
- Vai embora, vai.
Era isso o que ele queria.
Ela se levanta e se tranca no quarto.
Ele observa tudo aquilo com o seu habitual ceticismo.
O portão fechando tem som de alívio.
Passos apressados na noite fria. Faltam seis quarteirões para a parada do ônibus. É a última vez que o caminho é feito. Os postes, o asfalto, os muros das casas, tudo parece se despedir. Ele está feliz por ir embora. Pensa como Ela deve estar chorando agora, com a cabeça enfiada em um travesseiro na cama deserta. Ali, a vida voltará à normalidade.
Na parada, apenas uma senhora, a bombomzeira.
- Quanto é a menta?
- É dez.
No ônibus, não resiste a um cochilo. Fecha os olhos, mas as ruas esburacadas o impedem de continuar sonhando. É hora de acordar.
- Acho a minha vida tão legal que não a trocaria por nada – diz ao cobrador.
- Sorte sua.
- Por que você é cobrador?
- Não estudei.
- Muito chato estudar, não é?
- Não sei. Nunca estudei.
- Pois fique sabendo que é chato, mesmo. Tem que ler muito. E na maioria das vezes são só aquelas coisas que o professor quer. Quase nunca nós temos a opinião aceita.
- Pelo menos vocês podem dar opinião.
- Você pretende ficar nessa vida pra sempre?
- Pra sempre, não. É muito tempo, não achas?
- Realmente. Odeio tudo que é pra sempre. Estou sempre mudando, inventando novos rumos.
- Aqui não tem como mudar muito. Todo santo dia é o mesmo caminho. Sem tirar nem pôr.
- Pó, deve ser um saco.
- Um saco? Saco é apelido! Só estou aqui porque preciso sustentar a minha família. Sabe como é: com mulher e filho, só sobra pro papai aqui.
- E a sua mulher, não trabalha?
- Que porra nenhuma. A única coisa que ela sabe fazer é fuder.
- E faz bem?
- Ô, se faz! É a minha recompensa por esse castigo diário.
- E o seu filho, tem quantos anos.
- Nenhum, ainda. Está com 6 meses de vida.
- Legal, cara. Cuida bem dele. Assim que estiver crescidinho, põe ele numa escola.
- Coisa que a minha mãe não fez...
- Por quê?
- Por que ela morreu no parto. E o meu pai me deixou com a mãe dele. Dizem que ele está no estrangeiro. Nunca o vi. Não tenho a mínima idéia de como seja.
- Que barra, hein.
- Nem me fale.
- Mas só por estar vivo, já devemos agradecer.
- É o que eu faço todas as noites antes de dormir. Agradeço muito pela vida que eu tenho. Apesar de não ser das melhores, existem muitos que não sabem o que é ter uma janta quentinha à noite.
- Cara, tenho que ir! Quase eu passo da parada! Te cuida!
- Pode deixar.
Ele puxa a cordinha, a luz pisca e vai parar no cachorro-quente da esquina.
Ele não pensa mais nela. A não ser se ela entendeu o significado do segredo revelado. Se é que Ela notou que aquilo era um segredo. Vai ver Ela ainda está curiosa pra saber que diabos de segredo Ele anda escondendo. Se Ela perguntar, Ele jurou que não vai responder. Odeia as coisas explícitas.
- Lá vem você...
- Por que todas as pessoas, no fundo, no fundo, acham que pensam o “mais” certo?
- Por que você é hipócrita?
- Quem não é, no fundo, no fundo?
- Você me azucrina! Sabe o quanto eu te amo?
- Amor?
Ela abaixa o rosto, cruza os braços e enche os olhos de lágrima.
- Você não sabe o que amar, né? Será que passa pela sua cabeça que o amor pode existir?
- Eu não acredito no amor.
- Ah... novidade!
Ele dá um sorriso entre o sádico e o irônico.
- Quantas você deixou nesse estado?
- Nunca contei. Adiantaria contar?
- Você é um insensível, mesmo.
- Eu nunca disse o contrário. Vocês é que acreditam.
- Cara, tu não tens noção do que fazes, não? Só a tua vida importa!
- Ué, e por que eu iria suar pelos outros?
- Que prazer você tem ao ver os outros sofrerem?
- O mesmo que você deve ter ao chorar.
Ela passa a mão no rosto, enxugando-o.
- Por que eu ainda insisto em você.
- Acredite, você não é a única.
- Nossa, és tão cobiçado assim? Talvez seja por isso que nunca sabes o que quer.
- Sei, sim. Existem horas que eu sei que eu quero você. Outras, que eu sei que você fica melhor longe de mim.
- Não acredito que estou ouvindo essas coisas.
- Boa colocação. Por que ainda está aqui?
- Por que eu gosto de ti! – e cai aos pés dele.
- Ai meu Deus...
Ela grita várias vezes “eu gosto de ti!” à medida que, sem largar dele, se levanta até as bocas se encostarem uma na outra.
Um beijo.
Duas línguas.
Ela o abraça.
Ele tem as pupilas dilatadas.
- Por que você faz isso comigo? – diz Ela, choramingando no ombro dele.
- Foi você que fez.
Ela sai dali e vai sentar na escada, com a cabeça abaixada.
- Escuta...
Ele senta ao lado dela.
- Sai daqui!
Ela repete isso várias vezes, insistentemente. Ele se cansa e desce as escadas.
- Volta aqui, filho da mãe!
Um olhar.
Dois rostos: um com saudade do outro; o outro cansado de um.
- Como é que você consegue ser assim?
- Assim como?
- “Assim como?”
- Posso te pedir uma coisa?
Ela não faz que sim nem que não com a cabeça. Apenas o admira.
- Vamos esquecer tudo isso. Não cria expectativa de um futuro que não vai existir.
Ela levanta como um dragão apto a liberar extensas labaredas.
- Mas todo esse tempo foi isso que você deixou acontecer, seu insensível, insensato, infeliz, idiota, filho da puta! Esses meses inteiros eu pensei em você, em nós, em nosso futuro. Achei que um dia você pudesse mudar e poderíamos viver uma paixão normal. Mas não! Você só fez aumentar a minha ilusão. Aquela droga de bebida que você bebeu aquela noite deve ter feito algum estrago em sua cabeça pra fazer você me beijar e inventar essa farsa toda! Seu maldito mentiroso! Eu te odeio!
- Ei! Todas as vezes que eu te beijei eu estava ciente do que estava fazendo por que eu estava apaixonado! Mas você parecia não dar a mínima. Vivia falando que não precisava de mim. Você acha que não me iludiu também? E como! Você realmente não sabe as noites que eu quase não durmia pensando em você!
- E você nunca me falou disso, por quê? Você nunca disse que me amava!
- Mas quem somos nós pra falar de amor? Que coisa complicada!
- Eu te iludi, foi?
- O nosso caso foi uma ilusão. Foi uma paixão estranha. Ninguém dizia que gostava um do outro. Os beijos eram sempre uma aventura. Nunca se sabia se era certo ou errado. E a resposta, você nunca me dava. Eu ficava voando, sem saber como agir, o que dizer. Aos poucos, aquilo que eu sentia foi diminuindo, diminuindo... E o que restou é uma quantidade tão irrisória para uma paixão que ela sequer tem forças para voltar.
- Por que você só está me falando isso agora? – recomeça a chorar.
- Por que você nunca me perguntou. Nunca tivemos uma conversa. Você nunca se abria comigo. E isto é o resultado.
- Eu não tenho culpa...
- Não existe culpado nesses casos. Apenas vítimas. Geralmente duas.
- Você? Vítima? Ha-ha...
- Você continua achando que é a única. A única que sofre, manda e geme de tristeza.
- Vai embora, vai.
Era isso o que ele queria.
Ela se levanta e se tranca no quarto.
Ele observa tudo aquilo com o seu habitual ceticismo.
O portão fechando tem som de alívio.
Passos apressados na noite fria. Faltam seis quarteirões para a parada do ônibus. É a última vez que o caminho é feito. Os postes, o asfalto, os muros das casas, tudo parece se despedir. Ele está feliz por ir embora. Pensa como Ela deve estar chorando agora, com a cabeça enfiada em um travesseiro na cama deserta. Ali, a vida voltará à normalidade.
Na parada, apenas uma senhora, a bombomzeira.
- Quanto é a menta?
- É dez.
No ônibus, não resiste a um cochilo. Fecha os olhos, mas as ruas esburacadas o impedem de continuar sonhando. É hora de acordar.
- Acho a minha vida tão legal que não a trocaria por nada – diz ao cobrador.
- Sorte sua.
- Por que você é cobrador?
- Não estudei.
- Muito chato estudar, não é?
- Não sei. Nunca estudei.
- Pois fique sabendo que é chato, mesmo. Tem que ler muito. E na maioria das vezes são só aquelas coisas que o professor quer. Quase nunca nós temos a opinião aceita.
- Pelo menos vocês podem dar opinião.
- Você pretende ficar nessa vida pra sempre?
- Pra sempre, não. É muito tempo, não achas?
- Realmente. Odeio tudo que é pra sempre. Estou sempre mudando, inventando novos rumos.
- Aqui não tem como mudar muito. Todo santo dia é o mesmo caminho. Sem tirar nem pôr.
- Pó, deve ser um saco.
- Um saco? Saco é apelido! Só estou aqui porque preciso sustentar a minha família. Sabe como é: com mulher e filho, só sobra pro papai aqui.
- E a sua mulher, não trabalha?
- Que porra nenhuma. A única coisa que ela sabe fazer é fuder.
- E faz bem?
- Ô, se faz! É a minha recompensa por esse castigo diário.
- E o seu filho, tem quantos anos.
- Nenhum, ainda. Está com 6 meses de vida.
- Legal, cara. Cuida bem dele. Assim que estiver crescidinho, põe ele numa escola.
- Coisa que a minha mãe não fez...
- Por quê?
- Por que ela morreu no parto. E o meu pai me deixou com a mãe dele. Dizem que ele está no estrangeiro. Nunca o vi. Não tenho a mínima idéia de como seja.
- Que barra, hein.
- Nem me fale.
- Mas só por estar vivo, já devemos agradecer.
- É o que eu faço todas as noites antes de dormir. Agradeço muito pela vida que eu tenho. Apesar de não ser das melhores, existem muitos que não sabem o que é ter uma janta quentinha à noite.
- Cara, tenho que ir! Quase eu passo da parada! Te cuida!
- Pode deixar.
Ele puxa a cordinha, a luz pisca e vai parar no cachorro-quente da esquina.
Ele não pensa mais nela. A não ser se ela entendeu o significado do segredo revelado. Se é que Ela notou que aquilo era um segredo. Vai ver Ela ainda está curiosa pra saber que diabos de segredo Ele anda escondendo. Se Ela perguntar, Ele jurou que não vai responder. Odeia as coisas explícitas.

1 Comments:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk demais!!!!!
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